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Dona Carlota Joaquina

 

Rainha de Portugal, Infanta de Espanha,

Princesa do Brasil, Imperatriz

Honorária do Brasil

 

 

Trabalho de Carlos Leite Ribeiro

 

 

Nasceu a 25 de Abril de 1775

 

 

Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Borbon y Borbon, esposa de D. João VI, nasceu em Aranjuez (Espanha) e morreu em Queluz (Portugal). Desposou o Príncipe herdeiro português com apenas 10 anos de idade, vindo para Portugal, em 1785. Em fins de 1805, D. João, na qualidade de Príncipe regente, defrontava graves problemas de política internacional, em consequência de Portugal se achar entre as exigências da França e da Espanha, por um lado, e da Inglaterra, por outro. Nessa crise, a rainha conluiou-se  com alguns fidalgos para lhe arrebatar a Coroa. Descoberta a conjura, o regente separou-se da esposa, passando esta a residir no Palácio de Queluz (*) e aquele no Convento de Mafra. Em 1807, quando da primeira Invasão Francesa, a transferência da Família Real para o Brasil obrigou os dois esposos a viajarem juntos, mas no Rio de Janeiro continuaram a viver separados. Tentou tornar-se rainha de Espanha, quando Napoleão Bonaparte forçou seu pai abdicar, mas nada conseguindo. Regressou a Portugal com o marido já coroado rei, recusou-se a jurar a Carta Constitucional, porque “assentara nunca jurar na sua vida”. Aliando-se ao clero e à nobreza, urdiu a chamada “Conspiração de Rua Formosa”, descoberta em Abril de 1822. Foi-lhe fixada residência na Quinta do Ramalhão (**)  (entre o Estoril e Sintra). Ainda nesse retiro, conspirou com o filho mais novo, D. Miguel, no movimento conhecido como Vilafrancada. As Cortes reagiram, declarando a perda da cidadania portuguesa de Carlota Joaquina. Pouco tempo durou o efeito desse ostracismo. Derrubada a Constituição, o próprio D. João VI foi buscá-la à Quinta do Ramalhão e instalou-a no palácio da Bemposta (***) (Lisboa). Em Queluz, tramando outra conspiração absolutista originou a 30 de Abril de 1824, conhecida por Abrilada. O rei dominou a situação, apoiado pelos embaixadores francês e inglês, nomeando então uma regência, presidida por sua filha Isabel Maria. D. Pedro I do Brasil, herdeiro da Coroa portuguesa, após a morte de D. João VI, em 1826, outorgou uma Carta Constitucional a Portugal e abdicou em favor de sua filha, Maria da Glória, que contava então sete anos. Combinou o casamento desta com o tio D. Miguel, exilado em Viena. D. Miguel, ao chegar a Lisboa declarou-se rei absoluto, o qual deu origem às lutas liberais em Portugal. Carlota Joaquina auxiliou D. Miguel no que pode, mas morreu sem assistir ao desfecho da guerra civil.
Para realizar o projecto chamado de Floridablanca pelo qual se conseguiria uma aliança duradoura entre Espanha e Portugal foi assinado um tratado no qual estabelecia dois casamentos entre infantes espanhóis e portugueses; a Espanha daria ao príncipe Dom João a princesinha Carlota; e Portugal daria ao Príncipe Dom Gabriel, filho do Rei Carlos III, Dona Mariana Vitória irmã de Dom João; na época destes acordos Dona Carlota tinha 8 anos de idade e Dona Mariana tinha 15; esses casamentos levaram dois anos para se consumarem; só ocorreram após a assinatura do "tratado" entre a Rainha Maria Vitória de Portugal e o Rei Carlos III de Espanha. Em 17 de Março de 1785 o Conde de Louriçal que era ministro português na corte de Madrid pediu a mão de Dona Carlota para casamento em nome de Dom João; e o Conde Fernan Nunes embaixador espanhol em Lisboa pediu a mão da infanta portuguesa Dona Mariana Vitória em nome do príncipe Dom Gabriel. Carlota teve que submeter-se aos chamados "exames públicos" para o acordo matrimonial, quando respondeu durante 4 dias, cerca de uma hora por dia a perguntas sobre religião, geografia, história, gramática, língua portuguesa, (não se esqueça que ela era espanhola) espanhol e francês; as apresentações dos dois casais aconteceram no dia  8 de Maio de 1775 na cidade portuguesa de Vila Viçosa na fronteira com a Espanha. No dia seguinte, o casamento foi aceito pela Igreja através da bênção dada por um cardeal. Os festejos duraram quatro dias, durante o dia se realizavam torneios  e touradas, e a noite haviam reuniões musicais que na época se chamavam "serenins", bailes e representações líricas. Dentro desses festejos, durante uma das noites de núpcias, a princesa Carlota agrediu o esposo, mordeu-lhe fortemente a orelha e atirou um castiçal no rosto do marido. Depois desse episódio, foi feito um ato adicional ao contrato de casamento, permitindo que Dona Carlota pudesse ter sua primeira relação sexual com o marido aos 14 anos podendo voltar atrás caso assim ela quisesse ou seja: se ela quisesse fazer sexo antes dos 14 anos, poderia. Um certo Padre José Agostinho de Macedo, imprimiu uns folhetos contando esse caso da noite de núpcias de forma brincalhona e sarcástica com o titulo "O gato que cheirou e não comeu" (o texto é de um mau gosto terrível é tão grosseiro que eu não tive coragem de reproduzir aqui); a princesa, indignada com o escrito mandou dar uma surra de chicote nas nádegas do padre, despi-lo em praça pública e aplicar uma "seringada" de pimenta do reino no seu clérigo traseiro e depois soltá-lo nu no Bairro das Marafonas. O Padre José Agostinho foi socorrido por uma actriz cómica do Teatro da Rua dos Condes, Maria da Luz que depois veio a ser amante do vigário humilhado. O matrimónio, é claro, foi um fracasso.  A vida sexual do casal só começou realmente, cinco anos depois, quando Carlota menstruou pela primeira vez.
Apesar dos desentendimentos permanentes do casal, não só no campo pessoal, mas também no aspecto político, eles conseguiram passar 36 anos casados, embora durante os últimos anos da união não houvesse mais convivência entre eles.

Mau grado ser espanhola, ela foi a «portuguesa» que mais antecipou a moralidade sem preconceitos, a mesma moral que hoje é nosso apanágio, e a gestão livre das mentalidades, abanando uma e outras até aos alicerces com um comportamento livre e fascinante.

 

Carlota Joaquina em Buenos Aires... Os ingleses não deixaram, por Theresinha de Figueiredo
O VICE-REINADO DO PRATA
(...) A Inglaterra aproveita a crise de autoridade proporcionada pela fase napoleónica e começa a remover os últimos obstáculos à conquista plena dos mercados antes vedados da América. Depois de atacar a colónia holandesa do Cabo, que já fora lusa, uma esquadra britânica desembarca forças em 1806, em Buenos Aires. No ano seguinte repete a operação. A presença inglesa estava lançada no Prata. Antes mesmo de chegar à capital da colónia, Rio de Janeiro, a corte de Lisboa decreta a abertura dos portos, em 1808 e estabelece na colónia um governo europeu e metropolitano. O ministro inglês Strangford conseguira não só o acto relativo aos portos, mas o encaminhamento dos Tratados chamados de aliança e amizade, firmados em 1810. Eram concedidas às mercadorias britânicas direitos de entrada inferiores aos que incidiam sobre as mercadorias da metrópole. As acções da Inglaterra na luta pela emancipação das colónias ibéricas da América exterioriza o domínio que vinha exercendo na esfera comercial. Um exemplo da associação da Inglaterra naquela luta foi a participação de um almirante inglês no comando da frota que transportou as tropas de San Martin do Chile ao Peru. Essa mesma frota serviu à consolidação do poder do príncipe D. Pedro no Brasil. Operou para submeter as províncias do norte e nordeste ao governo do Rio de Janeiro e contra a própria frota lusa no Atlântico.
Carlota Joaquina quis ser rainha em Buenos Aires mas os ingleses não gostaram da ideia
O grupo mercantil de Buenos Aires imporia, com as forças das circunstâncias e a própria força, o direito de comerciar com todos os povos. O Vice-Reinado organizado sob o sistema de comércio livre com a metrópole, dá assim o primeiro passo para a autonomia. Após a independência do poder político, as colónias hispano-americanas começaram a traficar com os ingleses que abasteceram os seus mercados. Os navios espanhóis ficaram impossibilitados de navegar no Atlântico já dominado pelos ingleses.
Da queda da monarquia espanhola à consolidação da autonomia platina transcorre um período em que o comércio daquela área se desenvolve extraordinariamente com a Inglaterra e o Brasil. O movimento pela autonomia liderado por Buenos Aires e vitorioso, somado às novas condições comerciais, agravam ainda mais a situação de desequilíbrio já existente entre as províncias do litoral e as do interior. As do litoral colhem os benefícios da liberdade de comércio: - enriquecem e desenvolvem. O grupo mercantil dirigente da revolução e possuidor de meios materiais para manter forças militares, resiste e combate remanescentes espanhóis, estendendo a emancipação a outras áreas e subordinando-as em muitos casos. As do interior com sua indústria precária fora prejudicada pelo sistema de livre comércio. Empobrecia gradualmente. Nelas reinavam a desordem e o caudilhismo e os seus produtos ficavam onerados pelos fretes de transporte e taxas cobradas sobre eles em Buenos Aires. Havia, ainda, uma diferença entre o porto do estuário e as províncias litorâneas não dotadas de alfândegas. Elas não auferiam, por isso, os mesmos benefícios de troca com o exterior.
Essa contradição minou a unidade do Vice-Reinado, que se fragmenta após a sua autonomia.
O sistema comercial firmado na função da alfândega de Buenos Aires e a primazia da cidade portuária correspondia a uma liderança sobre a nação recém nascida e contra essa liderança levantariam todos os prejudicados: - O Paraguai, a Banda Oriental, as Províncias do interior. Buenos Aires defrontaria sérios obstáculos ao desenvolvimento. De um lado, a luta contra os remanescentes espanhóis; do outro, o desequilíbrio interno com as partes em luta pondo em perigo a própria autonomia.
Enquanto confusão e tumulto geram a nacionalidade argentina, no Brasil corresponde a um período de desenvolvimento pacífico; de consolidação de reformas, em que o príncipe D. João, regente e depois rei, esboça o aparelho de Estado, firma a autonomia da Corte sobre a extensa área geográfica da colónia; estrutura a sua administração sempre com o apoio da Inglaterra, consegue alcançar empreendimento externos, como a conquista de Caiena e a expansão para o sul. Ao mesmo tempo, D. Carlota Joaquina aproveitando as circunstâncias e as condições dinásticas, pretende estabelecer um trono para ela em Buenos Aires. A crise, no Brasil, deflagraria mais adiante e demandaria imensos esforços. Na área platina vinha de longe: - a autonomia apenas a fez explodir. Se a maioria das províncias do interior se colocavam dependentes da cidade portuária sem condições de resistência, outras desde cedo repudiaram a liderança de Buenos Aires como Lima, Paraguai e Alto Peru. Esta é uma das explicações para a guerra contra o Paraguai empreendida na segunda metade do século XIX pelo Brasil, Argentina e Uruguai. O antagonismo económico e social impôs a separação política. Depois de 1617, quando o Paraguai se separou administrativamente de Buenos Aires, ficou privado do contacto directo com o Atlântico e manteve-se isolado sem conseguir superar essa dificuldade, apesar do comércio com os portugueses.
A crise era generalizada: - o retrocesso do sector industrial era consequência exclusiva da crescente entrada de mercadorias estrangeiras que regulavam no mercado colonial as relações de oferta e procura. Enquanto na Europa a decadência do artesanato é superada com o surgimento da manufactura nacional, nas colónias não aconteceu este factor substituição.
Do outro lado do estuário surge o protesto de Montevideu, que com o passar do tempo ganha impulso e começa a rivalizar com Buenos Aires. No fim do século XVIII, a luta da cidade oriental manifesta-se abertamente. No início do século XIX, a rivalidade cresce entre os dois portos. Buenos Aires acusa Montevideu de "maus patriotas, piores súbditos, espanhóis só de nome, traidores ao Rei e à Nação" e até mesmo de "colónia inglesa". Mas as crónicas da época apontam a entrada, em Montevideu, em 1805, de 22 navios norte americanos. Onze deles transportavam escravos. Em 1806, este número cresce para trinta. Vinte transportavam escravos. Desde os fins do século XVIII, o Prata vinha merecendo os cuidados e as atenções norte-americanas, que via nesse amplo mercado uma área pela qual devia lutar.
A nova política comercial espanhola continha a semente da contradição. A prosperidade metropolitana induz o movimento pela autonomia das colónias. O desenvolvimento delas continha, por sua vez, a semente da penetração inglesa e seu domínio posterior. Como o grupo mercantil portenho aceitara e se beneficiara das medidas do novo sistema de comércio, ela aceitaria e se beneficiaria do sistema imposto pela expansão inglesa. Sem constituir capital comercial suficiente para construir a produção manufactureira, mantendo unicamente a esfera da circulação comercial, a burguesia portenha seria empresária de uma revolução pela autonomia frustrada, reduzida ao plano político. A Argentina constituiria – como o Brasil – dependência económica e financeira da Inglaterra, por todo o século XIX. E em grande parte do século XX, quando representou o último suporte do imperialismo inglês nesta parte do continente – o último a ceder lugar ao norte-americano.
(Therezinha B. de Figueiredo)

 

CARLOTA NÃO É MAIS AQUELA (Cartas Inéditas) - artigo de MARCOS STRECKER
Cartas inéditas mostram nova imagem de Carlota Joaquina, a mulher de d. João 6º, tratada comummente como rainha "devassa".
Após dois séculos de "ataques à honra" de Carlota Joaquina, a historiadora Francisca Nogueira de Azevedo procura reabilitar a imagem da princesa do Brasil. Ela prepara o lançamento de "Carlota Joaquina – “Cartas Inéditas", que reúne a correspondência privada e política da mulher de d. João 6º. A professora da UFRJ fez uma extensa pesquisa que incluiu arquivos de Madrid, Sevilha, Buenos Aires, Petrópolis e do Rio de Janeiro. Ela acha que a reabilitação faz sentido dentro do avanço da "história de género", o que também estaria por trás de um novo olhar que a França tem sobre Maria Antonieta, por exemplo. A compilação é um dos principais lançamentos do pacote de 19 livros que serão lançados dentro das comemorações dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil. Para celebrar a data, o Rio será palco de uma série de eventos em 2008. O início oficial será em Novembro, em Portugal, coincidindo com a data em que a família real portuguesa partiu para o Brasil.
Cartas mostram Carlota "delicada"
Historiadora reúne 145 cartas inéditas e diz que princesa "transgrediu o espaço permitido às mulheres de sua época"
Para professora da UFRJ, Carlota foi vítima da "historiografia liberal, masculina, que tem pouca tolerância com o contrário"
Devassa, má, intrigante, feiticeira, feia, vulgar, perversa, despótica, libidinosa, grosseira, depravada. Não há (poucas) palavras para descrever a mulher de D. João 6º. A personagem já ocupa um lugar claro no imaginário popular. E agora, se depender da historiadora Francisca Nogueira de Azevedo, esse "assassinato moral" que já dura 200 anos vai acabar por aqui. É o que ela tenta provar em "Carlota Joaquina - Cartas Inéditas" (Casa da Palavra), livro que integra o pacote comemorativo dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil. Ao reunir 145 cartas trocadas pela princesa do Brasil, a professora da UFRJ pretende definitivamente apagar a imagem que a actriz Marieta Severo deixou no filme "Carlota Joaquina - Princesa do Brazil", de Carla Camurati. Além das crónicas de Luiz Edmundo, uma das principais vozes antilusitanas do período joanino, a verve anticarlotista rolou solta no essencial "D. João 6º no Brasil" (Topbooks), de Oliveira Lima, e em biografias como "Carlota Joaquina, a Rainha Intrigante" (1949), do inglês Marcus Cheke, e "Carlota Joaquina, a Rainha Devassa", de João Felício dos Santos (1968).
Com a nova edição, a historiadora também avança em relação a seu livro anterior, "Carlota Joaquina na Corte do Brasil" (Civilização Brasileira, 2003), pintando agora um retrato mais humano e pessoal da mãe de d. Pedro 1º. Para a professora, Carlota foi vítima da "historiografia liberal, masculina, que tem pouca tolerância com o contrário, especialmente em relação às mulheres". Para ela, "por temperamento e atitudes, Carlota transgrediu o espaço permitido às mulheres de sua época". Isso não significa, porém, que o personagem não fosse difícil. "Ela era uma pessoa extremamente temperamental, a correspondência mostra isso", concede Azevedo.
Final do século 18
O livro chega às livrarias em Outubro e colige a correspondência que vai do final do século 18, quando se inicia a crise entre as coroas ibéricas, aos últimos anos de estada de Carlota Joaquina no Rio de Janeiro. As cartas estão divididas em três grupos: particulares, de gabinete e políticas. No primeiro caso, mostram uma mãe amorosa e mulher afectuosa que não hesita em chamar o príncipe regente de "meu amor". No segundo bloco está a correspondência com o seu secretário José Presas, que revela o quotidiano da vida na corte. Na última secção estão as sua primeiras investidas na esfera pública, ainda em Portugal, até o final de sua atuação na América. Os textos permitem, por exemplo, acompanhar o projecto "carlotista": torná-la regente da Espanha, sediando o governo no Vice-reino do rio da Prata. Pode-se identificar nos textos a resistência dos sectores que apoiam ou não o projecto, como as estratégias do Gabinete do Príncipe Regente, principalmente do Conde de Linhares, e do embaixador inglês Lorde Strangford para impedir a consolidação do projecto. Para a organizadora do livro, os textos deixam claro a independência e habilidade de Carlota Joaquina no jogo político.
Outros amores
E as inúmeras histórias de adultério? Para a historiadora da UFRJ, até aí há controvérsias. "Mesmo com o Sidney Smith (comandante das tropas navais britânicas no Rio), com quem disseram que ela tinha tido um relacionamento, peguei várias cartas e nenhuma correspondência me parece suspeita nesse sentido", diz. "Agora, acredito que tenha tido outros amores, uma mulher exuberante como ela era. Mas era uma mulher muito ciosa da etiqueta, foi criada para ser rainha da Espanha, vinha de uma das cortes mais ilustradas da Europa naquele momento. Era muito bem preparada." Em resumo, a professora acha que as cartas não corroboram a fama de ninfomaníaca da monarca: "Na esfera privada, é difícil conhecer detalhes de sua vida. Grande parte dos livros que lia eram de carácter religioso. Ela frequentava a igreja, era muito preocupada com a etiqueta, com o papel dela enquanto rainha. Acredito que tenha tido um amante, mas essas coisas abertas, como libertinagem, acho que é um exagero". Francisca Nogueira de Azevedo procura se inserir em uma tendência de reavaliar o papel histórico de grandes mulheres, à luz da historiografia de género. Como aconteceu na França com Maria Antonieta.
Mas Jean Marcel Carvalho França, professor de história na Universidade Estadual Paulista, em Franca (SP), é cauteloso com essa reabilitação: "O d. João 6º também foi penalizado, chamado de banana, idiota, porco, sem iniciativa... E ninguém discutiu se isso era uma posição antimasculina. Esse negócio da história do ponto de vista do género é muito complicado, às vezes todo mundo sofreu, mas pode-se achar que alguém sofreu sozinho", disse.
Jean Marcel acha que o leitor pode se surpreender com o tom afectuoso e carinhoso das cartas, que "dão a conhecer uma Carlota Joaquina que realmente não se conhece, uma pessoa delicada, com preocupações familiares, preocupada com os filhos, numa relação afectuosa com D. João 6º". A respeito da actuação política, ele considera que não há surpresas. Poucos meses antes de se completarem 200 anos da viagem apressada (ou bem calculada, segundo alguns historiadores) da corte portuguesa, que mudou a história do Brasil, a imagem de D. João 6º aparentemente já está recuperada. Se Carlota também vai conseguir limpar sua imagem, só o leitor pode julgar. Para Jean Marcel, "ela odiou o Brasil. Isso as cartas não mudam".
MARCOS STRECKER

Em 1785, casou-se em Madrid por procuração em 27 de Março e em Lisboa em 9 de Junho em pessoa com a Infanta Carlota Joaquina de Bourbon, de 10 anos, filha de Carlos IV de Espanha e de Maria Luísa de Parma, embora não consumassem o casamento senão em 1790.
Baptizada Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Borbon y Borbon, a infanta nascera em Aranjuez, em 25 de Abril de 1775, e morreu no palácio de Queluz em 7 de Janeiro de 1830, estando sepultada em São Vicente de Fora.
D. Carlota Joaquina teve três filhos e seis filhas.
Em 1793, D. João VI, aliou-se à Espanha no combate à Revolução Francesa, que ameaçava todas as monarquias europeias. Em 1801, Napoleão, que reiniciara a luta contra a Inglaterra, e procurava aliados, convenceu a Espanha a atacar Portugal naquela que ficou conhecida como a Guerra das Laranjas e D. João VI, não tendo condições de enfrentá-la, pediu a paz, prometendo fechar seus portos à Inglaterra. Contudo, a economia portuguesa estava profundamente ligada à Inglaterra e também corria o risco de ver seus portos bloqueados pela poderosa armada inglesa. Ao mesmo tempo, Carlota Joaquina, fiel a suas origens espanholas, conspirava na corte portuguesa e procurou, inclusive, tomar a regência. D. João VI tentou ganhar tempo, mas em 1806 Napoleão I fez-lhe um ultimato: ou fechava os portos à Inglaterra ou a França invadiria Portugal.

 

O Casamento - de Assis Cintra (nota: factos não inteiramente confirmados)


(...) Os festejos duraram quatro dias, achando-se presentes as duas famílias reais, a de Portugal e a de Espanha, bem como a fidalgaria e a burguesia rica de ambos os países. De dia, realizavam-se festas, torneios, touradas; de noite, reuniões musicais, que naquele tempo se chamavam serenins, bailes e representações alegóricas e líricas. Depois das festas. D. João e Carlota Joaquina, recém-casados, partiram para Lisboa. Mas o príncipe português ia mal-humorado, pois em Viçosa, ainda no dia da benção nupcial, explodira um escândalo, dando motivo a falatórios durante muito tempo.
Que escândalo teria sido esse? - Como teria estreado na vida de aventuras essa menina de 10 anos, que mais tarde seria rainha de Portugal e do Brasil, e esposa adúltera do sereníssimo e conformadíssimo rei D. João VI?
Seria mesmo escandalosa, aos 10 anos de idade, essa malsinada Carlota Joaquina? Dizem as crônicas antigas e a tradição histórica que sim.
Os artífices portugueses, ajudados por espanhóis e franceses, construíram junto ao pavilhão dos reis, o dos noivos, no qual, lado a lado, se apreciavam dois lindos aposentos nupciais. Os estofados mais vistosos, as sedas mais belas, as rendas caríssimas, broquéis riquíssimos, tudo que poderia encantar a vista e agradar o corpo na maciez de um conforto principesco, aí, nesses dois apartamentos vizinhos, podia ser encontrado e apreciado. E nessa histórica noite de 9 de junho de 1785, acompanhadas das famílias reais, as duas princesinhas, a de Portugal e a de Espanha, ingressaram nos respectivos aposentos. Logo depois, os príncipes foram chamados pelas camareiras e, com o cerimonial do protocolo, penetraram nas alcovas nupciais. E enquanto se fechavam as portas do pavilhão dos noivos, lá fora, no pavilhão das festas, continuava, numa linda canção de amor, o serenim
das damas fidalgas e dos nobres cavaleiros das duas côrtes reunidas de Portugal e Espanha. E a cantoria, mesmo de propositada intenção, ali perto dos aposentos nupciais, baixava em meia voz, e ia morrendo em surdina, como final de um serenim de amor, cantado no dedilhar de guitarras e bandolins. Eis então que, lá do pavilhão nupcial, gritos de mulher aflita, seguidos de um urro retumbante de dor agoniada, se fizeram ouvir, espicaçando a curiosidade dos cavalheiros e damas da sala de festas. Aos gritos sucederam-se gemidos, e de repente, como um fantasma, um vulto de mulher, em roupas de seda de Veneza e rendas de Holanda, deixava o pavilhão dos noivos e rapidamente atingia o pavilhão dos reis de Espanha.
Quem seria? O que seria? Tais eram as interrogações que imediatamente brotaram de todas as bocas cortesãs. E ainda perduravam as interrogações de curiosidade quando surgiu no salão de festa, ofegante e pálida, trêmula e desconcertada, a senhora condessa de Badajoz, açafata da princesa Carlota Joaquina.
Ia, numa pressa nervosa, gaguejando a todo o instante:
- Onde está o cirurgião-mór? E na arquejante gagueira lá foi repetindo a pergunta até que surgiu a figura rubicunda e gordalhuda do cirurgião-mór.
- Que há, sra. Condessa?
- Depressa, Sr. cirurgião, depressa, que o nosso príncipe D. João está morrendo, esvaindo-se em sangue e a nossa princesa D. Carlota está hirta como defunta no quarto de sua Majestade el-rei de Espanha. Lá se foi o cirurgião. E os cortesãos, aflitos e torturados pela curiosidade, esperaram pela explicação do caso de tamanho escarcéu. Somente muito depois é que o escândalo correu de boca em boca, e a explicação contentou regiamente a curiosidade dos bisbilhoteiros da Côrte.
No dia seguinte, a condessa de Badajoz, muito reservadamente, contava o caso ao seu favorito Marquês de Marialva e este o transmitia ao amigo padre José Agostinho de Macedo, de cuja boca ferina e indiscreta Portugal inteiro recolheu a tragédia nupcial do príncipe D. João, E no famoso convento de Odivelas, do qual era assíduo devoto, o padre narrava o episódio à sua favorita, soror Angelina, entre sorrisos maldosos e comentários picantes:
- Então, meu padre Agostinho, sua alteza o príncipe foi ferido na noite do casamento?
- Ora se foi... A condessa de Badajoz, açafata da princesa Carlota Joaquina, ouviu dela própria a história contada tim-tim por tim-tim...
- E o padre como o soube?
- Pelo Marialva, que o ouviu da açafata condessa de Badajoz. Foi assim: O príncipe D. João, recolhendo-se ao aposento nupcial, quis naturalmente prestar à esposa a mesma homenagem que o cunhado, no aposento vizinho, estava prestando à princesa D. Mariana. Porém, D. Mariana, com 16 anos e mais sabida que a outra, já se conformara previamente com as homenagens próprias de todo o noivado, ao passo que D. Carlota Joaquina, menina de 10 anos, ignorando o protocolo e rebelde às conveniências, não aceitou o jogo e, logo na primeira investida, aplicou uma violentada dentada na orelha do marido e, em seguida, aos gritos, meteu o castiçal de prata da cabeceira na testa de D. João, abrindo-lhe uma brecha. Vendo-o ensangüentado, fugiu para o pavilhão dos reis de Espanha, ainda em trajes de dormir e lá se estatelou num ataque de histeria...
- E agora, padre Zé Agostinho, e agora como vai ser?
- Já está tudo arranjado, soror Angelina. Gente de sangue azul não se aperta por tão pouco. Ficou assentado que sua alteza Carlota Joaquina terá quarto de solteira e recusará a visita do príncipe consorte até completar os 14 anos. É o que consta do ato adicional do casamento, assinado em 12 de maio, dois dias depois da trágica noite nupcial. Isso, naturalmente, só será válido enquanto a princesa o quiser...
- Como é, padre Agostinho?
- É assim mesmo, soror Angelina, porque a princesinha Carlota Joaquina poderá romper o protocolo antes dos 14 anos, tornando-se mulher na amplitude de suas prerrogativas e percalços. Será, apenas, uma questão da sua vontade, quando ela tiver...vontade.
(...)
Carlota Joaquina estava fula de raiva. O príncipe D. João, calmo, bondoso, risonho, procurava acalmá-la. Era inútil, e inútil porque não se acalmam espanholas enfurecidas quando provocadas no seu amor próprio. E aquele folheto que circulara por todo Portugal e saíra mesmo fora do reino, chalaceando o incidente escandaloso da sua noite nupcial, golpeara fundo o seu amor próprio de mulher e de princesa.
- E você acha, João, que o que está aí não me ofende?
O príncipe D. João, olhando a capa do folheto incriminativo, respondeu sorrindo:
- Não vejo ofensa, Carlota.
Carlota Joaquina tremeu de raiva. Todo o mundo via alusões naquele livrinho, e só o príncipe não via. Ele só, mais ninguém.
- Então esse título não é escandaloso? Não se refere à nossa noite de núpcias em Vila Mimosa?
D. João levantou o folheto até o rosto e leu em voz alta:
- “O gato que cheirou e não comeu”.
- Aí está a ofensa.
- Pois não vejo nada. Isso é bobagem de algum malandro sem eira nem beira. Eu não sou gato, você não é gata, e aqui só há coisas de gato...
Carlota Joaquina não pôde mais e num ímpeto arrancou o livrinho das mãos do príncipe. Abriu-o ao acaso e espumando de raiva, gritou nas bochechas do marido:
- Pois leia isto.
D. João aproximou-se e leu os seguintes versos:

 

Cante-se por toda a parte
A mordida na orelha dada;
A gatinha mordeu o gato
Na noite duma embrulhada.
E o gato só cheirou,
Miou e miou de dor,
Com uma brecha na cabeça
E nas ventas um fedor.
Reis, príncipes e bispos
Cantai a história berrante
Do gato que só cheirou
E apanhou no mesmo instante.

 

- Você viu? Não há alusões? bramiu Carlota Joaquina.
Mas o príncipe D. João, achando graça nos versos, desandou uma gostosa gargalhada.
- Quá... quá... quá... quá...
A princesa então saiu dos aposentos do príncipe, onde se achava, depois de lhe dizer quase em soluços de furor:
- Pois o caso será resolvido por mim. Você vai ver, João.
E resolveu de fato. Mandou chamar à sua presença o mordomo do palácio, o famoso João Couto e disse-lhe:
- Preciso que você me arranje uma pessoa de confiança para um serviço reservado.
- Alteza, respondeu o mordomo, o meu filho Antoninho é de toda confiança.
- Pois que venha falar-me.
No dia seguinte apareceu no palácio o famoso Couto da Judiaria, rapagão forte, destemido e barulhento. Carlota Joaquina mostrou o folheto e perguntou-lhe se sabia quem fora o autor daquele pasquim.
- Ora, Alteza, isso é do padre José Agostinho.
- Do orador sacro?
- Esse mesmo, Alteza. Lisboa inteira sabe disso.
- Mas esse padre então é um devasso?
- Esse padre, Alteza, tem mais vícios do que cabelos na cabeça. É devasso, arruaceiro, ladrão, anarquista, indecente...
- Mas é padre. Se não fosse, eu mandaria matá-lo. Como é padre, quero apenas castigá-lo.
- Com uma surra, Alteza?
- Não. A surra é uma vingança banal. Que castigo você se lembraria de dar a um padre indecente?
- Se Vossa Alteza me permite a liberdade, eu falaria.
- Pois fale.
- Alteza, o rei D. Pedro I de Portugal, antepassado do príncipe vosso esposo, numa ocasião, quis castigar o bispo do Porto, que era um devasso. Mandou expô-lo nu, depois de chicoteá-lo, no largo da Sé, aos olhos da plebe.
- Mas isso não é o bastante. Eu quero mais. Ouça, Couto, pegue com o auxílio de alguns criados do Paço esse padre indecente, dê-lhe uma surra de chicote nas nádegas, aplique um clister de pimenta do reino, e solte-o nu no bairro das marafonas.
(...)
E assim foi castigado o padre José Agostinho de Macedo, famoso escritor e orador sacro de Portugal e ao mesmo tempo famigerado devasso e rival de Bocage em poesias obscenas. O António Couto, acompanhado de criados do Paço, cumpriu as instruções da princesa Carlota Joaquina. O padre José Agostinho, solto nu na via pública, pulando de dor em consequência do clister de pimenta, foi socorrido pela actriz Maria da Luz, cómica do Teatro da rua dos Condes, de quem se tornou amante depois disso.
(...)
Tempos depois, o acaso colocou o padre José Agostinho frente a frente com a princesa Carlota Joaquina. E o padre, todo meloso, disse à futura rainha:
- Alteza, já ouviu falar da agressão de que fui vítima?
- Ora, reverendo, a sua vida deve preocupar o sr. bispo... Aproveite que ele vem vindo e conte os seus problemas a ele. E virando-se para o prelado:
- O notável orador sacro padre José Agostinho perguntou-me se ouvi falar na agressão de que foi vítima. V. Excia . ouviu, sr. bispo?
E o bispo, depois de fungar, tomando uma pitada de rapé, respondeu, rindo:
- Corre pela cidade de Lisboa que o padre José foi vítima de um castigo do diabo.
- De um diabo de saias, resmungou com os seus botões o padre José Agostinho que sabia ter sido o Couto um mandatário de uma dama de elevada hierarquia...
(...)

 

(*) Palácio de Queluz: Desde sempre concebido como um Palácio de Verão, a Queluz acorria frequentemente a Corte para assistir a serenatas, cavalhadas e espectáculos de fogo preso, por ocasião das comemorações dos santos patronos, em especial São Pedro, e dos aniversários natalícios das "Pessoas Reais". Com o incêndio do Palácio da Ajuda em 1794, o Príncipe Regente D. João VI (1767-1826) e D. Carlota Joaquina (1775-1830) vêm habitar Queluz em permanência. Ergue-se um segundo piso sobre a ala Robillon para aposentos da Princesa D. Carlota Joaquina e dos nove filhos do casal e do qual só resta o andar nobre sobre a Fachada de Cerimónias, uma vez que tudo o mais ardeu num incêndio em 1934.

 

(**) O Palácio do Ramalhão pertence ao ciclo de obras neoclássicas de Sintra, dinamizado pelo seu primeiro proprietário, Luís Garcia de Bivar, que ampliou um velho casal agrícola já aí existente em 1470, e fez erigir o conhecido Aqueduto do Ramalhão (1744), foi transformado em recinto palaciano depois de 1768, aquando da posse de D. Maria da Encarnação Correia, na fase da estada do escritor William Beckford (1787). Aqui estagiou amiúde D. Carlota Joaquina, após 1802, tendo vivido desterrada depois de recusar jurar a Constituição de 1822. Edifício com fachadas e frisos neoclássicos, decoradas com grinaldas do estilo Luís XVI, preserva jardins ainda com certo sabor aristocrático e, na sala do refeitório, pinturas a fresco de carácter exótico, atribuíveis ao pintor Manuel da Costa, um dos decoradores do Palácio de Queluz.

 

(***)Palácio da Bemposta (Lisboa). Em 1803 aqui habitava e tinha a sua corte o príncipe regente D. João, futuro Rei D. João VI. Já depois do regresso da Família Real, em Junho de 1821, D. João VI voltou para o Palácio da Bemposta no qual, com o objectivo de o tornar mais habitável, mandou efectuar várias obras nos anos de 1822, 1824 e 1825, principalmente nos quartos por detrás da Capela e no andar nobre voltado para a parte do jardim. Neste Palácio desenrolaram-se os factos políticos mais importantes da época de D. João VI como sejam os decorrentes da chamada Vila-Francada e os da Abrilada e aqui morreu D. João VI, em 10 de Março de 1826.

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal

 

 

 

 

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